Thursday, May 21, 2009

De óculos “modernaços” na ponta do nariz, pensando que quem me olhar reparará mais no ar “fashion” que na provecta idade, vou lendo os textos dos outros, assimilando as ideias, aprovando a criatividade.... ´Em cada um descubro um potencial humorista, romancista, jornalista ou poeta... Em cada publicação constato perícias de tantos escritores do futuro!Pasmo-me com a amálgama de emoções que tudo me provoca. Adivinho imagens, encolho-me, sorrio, passo adiante, suspiro, aplaudo! Ou vocifero, desgosto-me e aponto defeitos na forma.... talvez, quem sabe, para minimizar os efeitos da inveja que alastra cá dentro como o líquido que uma qualquer esponja absorve...Aí, então, caio em mim, nesta realidade mais e mais inquietante! Eu já fui assim, num antes não muito antigo. Brilhante e inovadora. Repleta de frescura e ideias apeteciveis. Numa outra época, num outro tempo , também eu fui uma promessa num mundo entusiasta e cheio das ilusões de gente nova que o inundava com turbilhões de acontecimentos diferentes todos os dias, de ímpetos maquiavélicos e de decisões dramáticas!Mas hoje em dia, a flacidez é tão flagrante que a maioria de mim, perdão, dos textos são reposições de escritos antigos, pois a criatividade anda vazia, pobre e anémica. E quando o meu exaurido engenho se esforça para concretizar algo que se leia ou se veja , não sou aplaudida nem tão pouco por mim mesma!Vale-me a vida diária, compulsiva, feita de gestos e manifestações, suaves ou violentas, pois nos momentos inconscientes do dia a dia continuo a pensar-me como partícula integrante deste mundo frenético, movimentado, exigente, sem idade e sem tempo. E fico vítima deste permanente paradoxo «52?! já?! mas sinto-me tão jovem!!», encaixada em todas as idades e todos os tempos, mas simultâneamente desenquadrada do meu próprio espaço, quando julgo sentir-me uma miúda!Mas vou , na mesma, vivendo feliz numa espécie de dormência semi-consciente dos meus passos em “slow motion”, da minha falta de força, e da quase ridícula mania de que sou uma fulana com pinta, a quem os amigos dos meus filhos consideram relativamente “cool” porque conduz cantarolando todas as músicas que o rádio transmite!Finalmente assento as ideias, quando me confronto com o cansaço do fim de um dia de trabalho, e começo a ouvir meter a chave à porta. Um a um vão regressando a casa e ao meu coração os motes da minha existência, sossegando com um beijo e um “olá mãe” a loucura intemporal de uma ex-adolescente, sem eira nem beira.
Confeitaria Nacional, hora de almoçar.Depois da habitual correria, estou mesmo com vontade de comer qualquer coisa aqui, penso. Entro, aguardo que me atendam. Uma sopa saborosa e aquela sanduíche de galinha com maionese... está mesmo a apetecer, hummm!Vou trincando devagar, deliciada. Enquanto o faço, eu e as demais pessoas que por ali comem ao balcão, vão-se olhando, sem se verem, exercitando o olhar nos contornos de cada silhueta. Há uma neblina de sons que se cruzam e misturam sem realmente se ouvirem.Até que entra uma figura diferente. Um homem muito novo, muito alto, muito magro. Com uma fiada de pequenos nadas para vender por coisa nenhuma. Mais um mendigo, pensam todos. Mas estranhamente não se aproxima de nenhum um dos presentes. Não pede nada. E à medida que se acerca do balcão, o silêncio em seu redor vai crescendo, expectante.Então o homem de olhos muito azuis e barba de muitos dias, olha para todos nós, e pede à empregada um copo de água. A mulher entope e repete o pedido, talvez pela surpresa. Um copo de água? Sim, se faz favor, responde ele.E quando aparece o copo, ele tira do bolso uma castanha. E no silêncio embaraçado do ambiente, só se ouvem os dedos sujos a descascar reverencialmente o pequeno fruto, para que nada caia no chão. Depois, come-o devagar, trincando pequenos bocados com a ponta dos dentes. Como se estivesse a saborear uma sanduíche idêntica à que pedi. Por fim, limpou a boca, olhou as pessoas que o fixavam, deu meia volta e saiu.Apeteceu-me correr, chamá-lo e oferecer-lhe alguma coisa para comer. Mas fiquei presa ao chão. Envergonhada comigo própria.Nunca me custou tanto engolir o que mastigava. Suponho que o mesmo terão sentido os que presenciaram esta cena!
Esta manhã acordei azul
Reflexo do rio que me abraça
Esta manhã sinto-me diferente
Da vida, para lá da vidraça.
Esta manhã vou fingir
ter a alma de um poeta
Gritando os meus versos bem alto,
Como se fosse um profeta.
E com surpresa, maravilhada,
Vou inventar poemas feitos de quase nada
Esta manhã vou ter voz e dizer
As palavras todas que a caneta me trouxer
E depois quando a manhã partir,
Já cansada de me aturar
Vou olhar o céu e pedir
Que traga a noite para me embalar.

Tuesday, March 10, 2009

"Aquela magnólia
do jardim ao lado
tinha raízes profundas
na minha infância
e nos meus sonhos.
Aquela magnólia
tinha um tronco enorme
e os seus ramos frondosos
tinham as mais belas flores roxas.

Todo o ano.

Tuesday, March 03, 2009

Na relva húmida do parque,
deitada ficaste olhando o ceu e as estrelas.
Junto ao canteiro do lago
(onde um dia observaste os cisnes, invisível e só,
no meio da gente que não te soube ver.)
o manto daquelas flores
com que tantas vezes te enfeitaste,
escondeu-te do mundo embrulhada em trapos ,
salpicados de petalas e perfumes.
Ali na terra escura encontraste abrigo.
E o teu olhar fixou as estrelas
procurando, quem sabe, um amigo, ou
o calor do abraço da tão sonhada mãe,
deixando nesse pequeno rosto
gasto pela solidão, um sorriso.
Na relva húmida do parque
o frio te acolheu.
E a morte te levou.

De pé junto à grande janela do estúdio, a locutora olhou pensativa, para o céu. Depois, limpando uma lágrima, dirigiu-se para as câmaras, e anunciou:

Menina sem nome e sem idade,
envolta num magro cobertor
foi descoberta sem vida,
fixando o céu com um olhar sem cor.

Friday, February 27, 2009

Estou onde tenho de estar.
disfarçada.
pretendente a fada (?).
só estou e mais nada.

olhando quem passa e o mar.

Vejo-me pó, ar, sombra, luz,
mas sou tão igual/tão diferente da gente que me seduz!

Partícula feliz da natureza
réstea de sol, enérgica presença

me encanta o mundo, mesmo cruel
sem defesas me enveneno no seu fel

sou uma experiência de Deus,
uma beleza? nem mais!
máscara de princesa do reino dos animais
Não quero mais nada contigo
E os meus olhos seguem-te a sombra
Fingindo só fazer o que eu digo

Não insistas, que eu consigo!
Mas vou correndo ao teu encontro
Procurando uma vez mais o teu abrigo

Nunca mais vou estar contigo
Repito baixinho para não me ouvir
Não vá eu ter de fazer o que não posso cumprir
Sonhei que estava cheio este espaço. Sonhei que as palavras tinham nascido aqui. Imaginei esta esquadria repleta de vocábulos, riscos e rabiscos, imagens, sons e muitos sentimentos. Mas tudo não passou de uma grande confusão. Sonhei sim, mas em vão.
Isto não me pertence. Pertence a todos os que me visitem. A todos os que me lerem. Não passa de uma porta. Ou de uma antecâmara. Para dentro de cada um de nós e até mim, é certo. Mas não é meu. Não posso impôr as minhas regras. Tenho fronteiras aqui. E apesar da liberdade aparente para construir e criar coisas, estou confinada a este paradoxo de um limite sem fim. Sou um ser livre mas sou tua. Estou impregnada deste teu éter. Da ligeireza da tua essência. Deste vazio constante que tantas formas encerra. Da brancura das tuas vestes. Do colorido feito a gosto.
Descobri que estando contigo, estou em ti, e estou só. Mas estou feliz!
Faz tanto tempo que não escrevo nada
não crio nada, não desenho nada.
Ando sem veia, ando esgotada.
Do tanto tempo que só penso em ti,
que não te vejo nem sinto
e não te tenho aqui.
Que tudo o mais fica seco,
os olhos, a alma, o intelecto.
Restando em mim e só esta saudade
de te abraçar e te ter por perto.
Contando a luz dos dias sem idade
permanecendo ansiosa neste aperto .
o dia em que me deixaste
chorei de saudade e dor
e quando olhei para o ceu
encontrei uma estrela maior

no dia em que partiste
olhei, triste, para o mar
estava ainda mais azul e as ondas
dançando, trouxeram-me o teu olhar

encontrei-te então na paisagem
e, benevolente, o horizonte da vida
ofereceu-me a tua imagem
De fora para dentro
Pensamento, embora!
Que se foi o vento/vontade de te ter/parir
Embrião-desejo de te ver entrar
Ou de te ver sair.
Ou mesmo o ensejo de te dar um beijo
Ou sequer sorrir.
Sem fora nem dentro.
Momento perdido num ápice frágil.
E não poder fugir .
Sem mão, sem tesão, sem engulir.
Antevendo mornamente
O pálido eco que teima repetir,
Tarde despertando deste movimento.
Depois, atenta, desponta em mim
A debilidade de um lamento
Trazido bem do fundo, bem de dentro
Sem forma, sem estrutura, sem alento
Respirado, suspirado, em crescimento,
Sofrido, fraco, forte, assim assim.
O que nos separa
não é a distância
é somente a discrepância
entre o meu e o teu olhar

O que nos atrai
não é a beleza
mas, e só, a estranheza
da urgência de te amar

O que nos cativa
não é mais do que o gesto
e o desejo manifesto
sem te conseguir alcançar...

E o que fica por dizer
depois de muito falar
Vai-se dizendo aos pouquinhos
gota a gota, pingo a pingo,
em surdina, de mansinho,
entre linhas, entre abraços
quando queremos namorar.
A Poesia ?

(pode ser)

um estado de alma
um vislumbre do infinito
uma réstea de sofrimento
um desgosto maldito
um morno balançar em movimento
um toque suave do olhar
uma musica de fundo
divagações sobre o mundo
o alívio ou o pavor
mais lágrimas e mais torpor
um mero filosofar
sobre os sonhos.
Ou então o falar
sobre a luz
sobre o amor
e sobre o mar.
Sonhei
que em vez de noite era dia
e em vez de chorar eu ria
da fartura e da alegria
duma paz nunca tardia
Sonhei
que já não era frio,
o que sentia, nem dor ,
mas sim muita luz e calor
e me aquecia um sol cheio e morno
num céu limpo de azul
Sonhei
que o mundo estava em mim
e resplandecia por fim
livre de odios e feridas
e almas desprevenidas
podiam pular sem medo
por entre o arvoredo
sem tiros, nem pontarias!
Sonhei, sim!
E até pareciam loucos
Lebres, patos e pardais
tão serenos e tão poucos
Os homens, menos que os animais!
Mas depois acordei
e estremunhada constatei
que o meu fora um sonho medonho.
e comigo-mundo o sonho brincara
E na alma só me ficara
uma réstea - muito vaga - de esperança
de uma eventual mudança.
Vislumbrei na alma então
uma chama de paixão.
Pulei veloz da cama
E à janela em pijama
decretei «é proibida a caça
Através desta vidraça»
e só depois sosseguei!!

(De tão estranho reparo
Fica somente a certeza
De a razão estar presa
A sonho madraço e raro)
É linda a Prima Vera. Ainda hoje.
E ainda hoje sinto um calafrio na espinha, quando estou perto dela e me recordo daqueles dias que passou conosco nas férias da Páscoa.
Quando a vi pela primeira vez, ela tinha 18 anos.
E eu 15. No auge daquela fase difícil de não me perceber e achar que ninguém me percebia. Tinha raiva de cada borbulha, dos pêlos que despontavam, dos braços compridos demais, da "maçã de adão" que mais parecia um caroço de ameixa entalado! Odiava a minha própria sombra por me sentir um verdadeiro troglodita. Queria salvar a humanidade (sobretudo da geração dos pais) e sentia o peso brutal do mundo nos meus frágeis ombros de rapaz.
Nos tempos livres, atirava-me para cima da cama e ouvia música aos berros. Arrastava-me pelos cantos gemebundo e resmungão, inseguro e irrequieto, todo os dias ansiando prazeres nunca sentidos e sensações desconhecidas.
Por isso, quando a minha mãe nos chamou para a vir conhecer à sala, e vi aquela coisa linda de cair para o lado, mesmo ali à nossa frente, corei de alegria, prazer e gaguez mental. E claro, fiz figura de urso porque quase desmaiei! Imagine-se! Eu que só pensava em gringas, ia ter aquele borracho a viver lá em casa durante 2 semanas!!!
Como a primavera, também ela era feita de tons dourados e castanhos. Os seus olhos verdes lembravam o verde das folhas e os seus lábios eram carnudos e apetitosos como maçãs. O seu corpo era para mim (que nunca vira outro) o mais belo dos corpos e o mais apetecível!
Logo na primeira manhã que passou conosco, fui às escondidas da minha mãe espreitar pela fechadura da casa de banho, enquanto ela tomava banho. Eu e o meu irmão mais novo. E foi tal a algazarra que ela deve ter percebido, pois a partir desse dia, em vez de nos denunciar, passou a despir-se mais devagar!!
Desde então, quando acordava ficava quase furioso, porque só queria continuar a sonhar com a Prima Vera e com o que a sua generosa imagem me levava a inventar, nos braços da minha imaginação fértil.
Houve algumas cenas perturbadoras que me deixaram sem fôlego, como fugazes segredos, impregnados de calor, sussurrados ao ouvido em dias de pic-nic familiar, pequenos toques no escuro e comprido corredor que me faziam cambalear a caminho da sala de jantar ou súbitos e prometedores “roçanços” por debaixo da mesa durante as refeições.
Nessas alturas, a adrenalina subia em flecha devido à sensação de que todos, incluindo a minha avó, se apercebiam do sucedido. Mas eu, que até então fora tão preocupado com os olhares e comentários de quem me rodeava, deixei de ser macambúzio, e de repente tornei-me esfusiante, dizendo graçolas e tiradas filosóficas a torto e a direito. E tornei-me surdo em relação aos risinhos abafados do pateta do meu irmão Henrique e das empregadas que lhe alimentavam a veia da cuscovelhice. Nem queria saber! Andava nas nuvens, e muito bem acompanhado!!
Até que um dia os “grandes” saíram e quando o silêncio adormeceu por fim, ela veio ter comigo ao quarto! E trouxe consigo as armas da sedução que derrotaram a minha infância, transformando-me num fogoso amante surpreendido com a sua fome voraz de vida e volúpia!
Assim, ao longo daquelas semanas de férias vivi intensamente a Prima Vera. Sorvi as suas seivas, inebriei-me com os seus perfumes, quase enlouqueci antes de cada encontro com a ansiedade de querer sempre mais.
Depois, um dia tudo acabou. Cortaram-me esta fúria com uma simples despedida, na mesma sala onde nos conheceramos.
Acabava-se a Prima Vera e a profusão das suas cores e aquela bebedeira louca dos sentidos!
Não me lembro já muito bem como se desvaneceu a dor do fim imposto daquela paixão.
Provavelmente foi com outros tantos sonhos. E com o ver-nascer-o-sol numa madrugada de Verão.
Ficou em mim a aura inconsciente da experiência e da maturidade alcançadas com a ajuda da Prima Vera. E nunca mais pensei nela. Até hoje. Ao reencontrá-la quase 60 anos depois.

Um dia, depois de ter enviuvado resolvi, numa reunião muito especial com os meus filhos, anunciar que iria distribuir a maioria dos meus bens em vida e mudar-me para um pequeno T1 num lar, pomposamente chamado de residência assistida.
Não foi uma decisão fácil. Nem para mim, por ter de admitir a minha pouca autonomia devido ao AVC, e ter de seleccionar os poucos pertences que me comporiam o apartamento, nem para os meus filhos ao aceitarem que esta seria a solução mais lúcida e adulta de todas as que poderíamos tomar em conjunto.
Mas finalmente, tudo se resumiu à mudança para um agradável apartamento, decorado pelas minhas filhas, onde os meus livros e as recordações mais próximas fariam parte do meu novo futuro, e à descoberta de um ambiente civilizado e simpático onde pessoal especializado e discreto se manteria 24 horas capaz de me ajudar em caso de necessidade.
E foi assim, que numa visita à piscina do condomínio me apercebi das aulas de hidroginástica e das alunas. E pensei com ironia «ora aqui tens algo para te distrair quando estiveres mais deprimido» ,

Estranhamente, no grupo das ginastas nadadoras não a reconheci logo. Os meus olhos já não são o que eram ... Mas, uns dias mais tarde, ouvi-a no restaurante . Estava a conversar com outra senhora, e eu não me apercebera da sua presença. Mas quando se riu, parei e dei meia volta, ao som cristalino daquela voz. A Vera aqui?! Não pode ser! Ao fim de todos estes anos encontrarmo-nos num local destes, pensei estarrecido.
E fiquei ali parado a olhar para ela com um sorriso apatetado, à espera de ser reconhecido. Até que a amiga lhe chamou a atenção «Vera, está aqui um senhor a olhar para ti com um ar muito sorridente...» e eu percebi que ela não me via. Aproximei-me então e disse-lhe «Olá Vera! Já não te via há alguns anos! Mas estás na mesma!!» Então, aquele rosto que eu adorara voltou-se e iluminou-se na minha direcção. «Jorge! Meu querido Jorge! O que fazes por aqui?!»
A amiga afastou-se discretamente, pondo o seu lugar à minha disposição. Sentei-me e com a minha mão esquerda, procurei a dela. E ali ficámos a enumerar os anos e os dias vividos longe um do outro. Foi um momento cheio de magia. Enquanto eu ia fixando vagarosamente os traços ainda belos do seu rosto e do seu corpo ela ia contando, através de sorrisos e lágrimas, as diferentes etapas e desaires da sua vida. Egoisticamente, exultei por ela não me poder ver, só se apercebendo vagamente da paralisia e da degradação física do meu corpo.
Estamos juntos desde então. Cada um separado pelas suas diminuições e pelas suas maleitas, mas sentindo a dois as dificuldades e as preocupações desta etapa das nossas vidas. Cada um no seu apartamento, mas partilhando os dias com uma serena alegria e um amor feito de doces recordações e muito altruísmo.
Vivemos o nosso tempo presente, como uma dádiva, sem pensar muito no futuro. E ao contrário do que fizemos em novos gozamos cada minuto do dia, cada dia da semana, como se fosse o último.

E ao Inverno da minha vida, mais uma vez, a Prima Vera trouxe luz e calor, fazendo renascer em mim a alma do adolescente de 13 anos.
Dentro de mim também choro.
Um choro ácido.
Feito de lágrimas secas e gastas pela surpresa
E desespero de nada poder fazer.

Dentro de mim também grito.
E ninguém me ouve,
porque a minha voz se cala
perante a dor que me tem presa...

Dentro de mim também chove.
Gotas de uma tristeza assim...
E o sofrimento afoga o meu coração
nesta impotência de antever o fim

Oh! como eu queria pegar-te nos meus braços
e embalar-te ao ritmo dos passos
que dou para te encontrar

E se possível tirar-te este inferno
E, em troca, dar o meu corpo e até o Inverno(!)
Para te proteger até a Morte chegar...
Sonho entardecer com os teus passos
e no calor dos teus braços
adormecer por fim.

Sonho ser a aurora e a madrugada
acordar enfeitiçada
e não quebrar esse abraço
que se segura em mim

Desejo ser tudo e ser nada
Sentindo o infinito da alvorada
Ou a morte. E ressuscitar.

Reviver esta vida
E depois de reinventada
Redescobrir em cada dia
Este enorme gosto de te amar assim
Vivia só já há tanto tempo que nem a luz do sol queria alguma coisa com ela. A sua casa era escura como breu. Só o fumo e o lume fraco das poucas giestas que arranjava aqui ou ali lhe faziam companhia. O seu homem, já se finara, havia muitos anos. Graças a Deus, já só se lembrava dele em novo, no dia em que se casou. Que depois, fora uma vida ingrata. Suja e cheia de pancada. Nah! Dele, de bom, só mesmo os filhos. Eram a sua riqueza. Mas estavam tão longe... Parira seis filhos, aos primeiros acudira a Ti Justina. Nos últimos dois, já se amanhou com a filha mais velha a ajudá-la.
Fora uma vida sacrificada, muitas das vezes à mingua. Mas nunca faltara o pão para dar aos catraios. Lá na aldeia todos se entreajudavam porque a amizade era maior que a pobreza.
Restavam-lhe vivos três filhos. Mas estavam espalhados por esse mundo fora. A sua Tina tinha querido levá-la para o Canada, quando lhe morrera num acidente o único filho solteiro, o Manuel, que consigo morava.
Mas não. Dali não saía, a não ser para a cova. Era a sua terra.
E agora estava só. Deixara de responder às cartas («pois se o tio Jacinto que lhas lia já não via nada!» pensou) E também, já ninguém vinha de férias para ali. Tinha perdido o tino aos anos. A última vez que recebera notícias da Elizabete, sua neta, fora à um ror de tempo...
Restava-lhe a vida que sabia viver. Ia todos os dias ao pasto com as cabras. Do rebanho de 20 cabeças restavam-lhe estas duas, quase tão velhas como ela... Mas eram a sua companhia, e davam-lhe algum sustento. Enquanto pastavam, sentava-se num barroco pequeno e ia falando para si própria e para os animais, como se fossem família. Ou então punha-se à cata de ervas e bagas como fizera no passado para as tizanas e mezinhas que lhe haviam dado a fama de melhor curandeira da região. O corpo é que decidia. Que ela já não mandava nada...


Durante anos não havia, no entanto, tirado grandes proventos do facto de ser tão boa curandeira. Poucos eram os que lhe pagavam alguma coisa. Eram todos tão pobres como ela e não tinha alma para lhes pedir nada. Só nos dias mais magros perdia a vergonha e pedia aos mais endinheirados que lhe trouxessem qualquer coisinha como paga pelos tratamentos. E tinha conseguido levar a casa adiante.
Mas apesar da riqueza não lhe bater à porta, tinha orgulho na sua profissão e na sua sabedoria.
E sabia que todos a procuravam porque confiavam na sua arte e a respeitavam como curandeira.
Mas agora, já nem isso conseguia fazer. Não via quase nada – devia ser fumos nos olhos...
(CONTINUA)
A lista das compras da minha mãe é sempre muito esquisita.

Não começa a ser feita senão lá para 5ª ou 6ª feira, num pedaço de papel às-três-pancadas em que se anota tudo o que vai vendo que falta em casa, e aquilo que a empregada vai lembrando (o que, diga-se, é um mau início, pois que ambas são já umas cotas e a memória já não está lá muito fresca).

Arroz, farinha, esparguete, açucar, ovos.....

Entretanto toca o telefone, TRRRRRIIIIIIM!!! TRRRRRIIIIIIM!!! e lá vai a mãe atender. Põe-se a falar com a avó Gi e pronto! Acaba a conversa sempre baralhada, e aí, começa a confusão!!

Quando regressa à cozinha já não se lembra da lista começada “Aonde é que eu ia? Ah, sim o óleo...( e acaba por não anotar os ovos, por exemplo!).

Mas volta-se para o fogão e os tachos, para ir adiantando o jantar, e só à medida que cozinha, é que se vai lembrando de uma ou outra coisa, dizendo alto: “Meninos, lembrem-me que tenho de comprar margarina!!” “Maria, Tomás, lembrem-me que já não há cereais!” “Oh! Teresinha, vê lá se precisamos de papel higiénico”, “Tomás, pergunta ao pai se ainda tem shampô”) .

Com tantos pedidos, perguntas e avisos, gera-se um verdadeiro corropio perfeitamente disparatado entre a cozinha, o escritório, a casa de banho, a sala e o corredor! E, claro está, que ao fim de todos estes anos, já ninguém cá em casa liga nenhuma! São tagarelices chatas de mãe-dona de casa-stressada!! QUE SECA, pensamos!!

Então, num dia depois das aulas e dos empregos, um dia a Mãe decreta ser o momento (“...e já! Se não já não consigo ir”) de ir ao supermercado. E todos lá em casa estremecem ante o cenário que se avizinha.

Mas antes de partir, é difícil arranjar candidatos a ajudantes: ninguém quer ir. O pai recusa-se “não contes comigo para andar a passear em supermercados! ”; os manos fogem: “outra vez esta seca”; “hoje vais tu que eu fui a última”!

Acaba por sobrar sempre para mim que sou a mais nova(!)

Dentro do super, inicia-se o pandemónio: primeiro serenamente (“ainda temos tempo, deixa só ver o que há nas promoções”) e depois gradualmente aumentando de velocidade, à medida que também o carro das compras se vai atafulhando de coisas (algumas bastante supérfulas, eu acho!!).

De todo este rebuliço se conclui que muitos dos artigos comprados não eram totalmente necessários e outros tantos ficaram esquecidos nos tais “lembretes” familiares!!

Depois, vem o drama de arrumar o carro no parque de estacionamento por baixo da loja: a minha mãe, cujo sentido de orientação é quase nulo, perde-se quase sempre! E é ver um carrinho a abarrotar, a ser empurrado com esforço por uma filha a bufar, e a mãe atrás, andando às voltas e a gesticular (“ Tenho a certeza absoluta que pus o carro ao pé daquela porta Maria!!” “Oh mãe, é ali, não vê o carro ali?!”)

Resumindo, e para acabar esta espécie de queixume filial, resta-me dizer que o descarregar do carro, levar a tralha para cima, e arrumar tudo, se divide por todos: nós os que chegamos e os que estão em casa (se os houver por lá).

Depois de tudo metido nos respectivos lugares, rara é a vez que a minha mãe se satisfaz. Falta sempre isto ou aquilo! E lá vamos nós de novo:”Eu não acredito!! Esqueci-me dos caldos Knorr! Manéééél, queriiiiido (“desta vez chama o meu pai” numa vozinha doce, para ver se pega”) podes ir num instante comprar?”

E o meu pai, lá vai, sem lata para se negar ao recado, recebendo, a meio da viagem, a habitual chamada da mãe a pedir que traga também coentros ou qualquer outro pormenor culinário, o que o deixa um bocado irritado!!

Verdade, verdadinha, convém salientar, que neste panorama diário e confuso da nossa economia doméstica só a minha mãe está em todas:
Na tal lista mal começada e por acabar; nos telefonemas que ninguém quer atender; na cozinha com os tachos e panelas; nas correrias dentro do supermercado (mesmo se algum tempo se perde com objectos menos importantes para a vida familiar); no trânsito, vociferando contra os “totós”, os incautos e os aceleras que a empatam, assustam ou incomodam; na chegada a casa, recheada de sacos e tralha; e até mesmo naquela voz delico-doce com que convence o pai a fazer o que não gosta ao descobrir o que ainda há a comprar!!

Como sempre, o dia chega ao fim, e a mãe, vazia de grandes intelectualidades, mas coberta de “dorzinhas” nas costas e nas “dobradiças”, serve o jantar e leva o café expresso ao pai, que está sentado na sala. E quando se senta ao seu lado, para ver aquele programa de que tanto gosta, ainda tem tempo para abraçar quem se vem encostar a ela, como que para ser embrulhado em mimos, e depois.... adormece e por ali fica até às tantas da manhã, sem que ninguém a consiga acordar!

E todos nós, quando nos vamos deitar, adormecemos estafados por tanta tagarelice e resmungueira, mas tranquilos e confortados por ter aquela super mãe em casa.
Poderia fazer uma descrição mais ou menos completa do aspecto físico dum livro, do tipo « um gato é uma coisa que tem bigodes».
Se assim fosse, definiria o livro como «uma coisa que pode ter uma capa dura (ou não) com muitas (ou poucas) folhas de papel lá dentro, cheias de desenhos, palavras ou números, ou simplesmente lisas e brancas».
Bem sei, bem sei! Dir-me-ão que esta definição é muito vaga, mas a ideia é essa. Tem de ser assim. Definir o objecto-livro, está bem. Definir o livro-livro é tarefa quase impossível, já que cada um é diferente do outro. Falo, claro está, do livro enquanto obra de alguém, seja ele uma novela, um tratado de geografia, uma colectânea de poemas ou um álbum de BD.
Um livro tem uma vivência quase humana. Começa nú. Como nós. Vazio e puro. Depois é aberto como uma virgem, há sempre uma primeira vez . Finalmente, desenvolve-se e pode mesmo ter “descendência” .
Livros há que morrem ou são mortos. Outros há que perduram e se imortalizam.
Podem ter cabeça, ou não, consoante o seu autor o criou «com cabeça», ou
mãos porque o encheu de desenhos ou, corpo, como aqueles de estilo “hardcore”. E até pernas, por exemplo, para os editores, quando estes afirmam com um ar sabedor e inquestionável que « a obra tem pernas para andar».
Enfim, vou-me ficar por aqui. Isto não é um livro. Só uma dissertação sobre o mesmo e já vai para aqui um verdadeiro romance...

Friday, February 20, 2009

CINZENTOS E NEBLINAS

PARTE I


Quando entrava no gabinete, deixava tudo lá fora. Ali era só sua. Despojada de artifícios e fingimentos. Não havia olhares nem gestos nem gente que influenciassem a sua maneira de estar ou de ser. Alheava-se de tudo e podia escrever. Ou só sonhar. Tanto era o tempo que passava a sós consigo própria. A sua companhia habitual dos espaços de preguiça era a grande e generosa janela, que lhe oferecia diariamente o espectáculo do dia a amanhecer através da neblina e o desassossego das águas do rio. Horas de trabalhar, decidiu sem ânimo. Os olhos azuis percorreram mais uma vez a paisagem através da ligeira névoa matinal. O dia anunciava-se luminoso. Quase demais, pensou. Como se se estivesse a abrir um rasgão no céu para o sol entrar sem pudor. Virou-se para o écran do computador, de novo. Abriu emails. Resolveu alguns assuntos pendentes. E de novo foi parar ao seu “canto. Aí se refugiava e aí resplandecia. Recomeçou aonde interrompera e escreveu mais umas linhas... «o rio amanhece esverdeado » Mas não estava inspirada. Não se revia nas palavras que escrevia. E os seus olhos invariavelmente deslizavam para a janela... Recomeçou dias depois. Por acaso e de modo algo inesperado. Brincou um pouco nas teclas, e foi forçada a parar. O telefone tocava. Tinha de se obrigar a quebrar o cordão que a ligava à escrita. Até achou graça. Quase parecia uma dança, pensou, rindo por dentro. Dois passos e pára. Três palavras e pára. Ligou o rádio. Precisava da música e do seu balanço. O ritmo fazia parte integrante de si e até nos seus textos se manifestava, deixando aqui e ali um pequeno ou grande toque de movimento. Nova interrupção. Desta vez mais longa. Levou anos sem mexer no texto. Para ser franca, já nem se lembrava dele... Até que num momento de “saudades” reencontrou as palavras interrompidas há muito tempo. (CONT)

Wednesday, February 18, 2009

Lá na roça, uma tardinha
Num dia já bem atrás
me enamorei da Rosinha
era eu ainda um rapaz.
Prisioneiro dum sorriso,
Embeiçado dum olhar
Fui vítima de tal feitiço
que ainda hoje tenho enguiço
e me custa até lembrar.

Ai, Rosinha você partiu
da sanzala já faz tempo...
Se fartou de meu amor
me deixou só, ao relento..

E patrão sempre resmunga
quando trabalho o café
porque me vem seu perfume
e sobe em mim tanto lume
como se a tivesse ao pé.

Ai, Rosinha você partiu
se foi embora de mim,
me deixou tão de repente
sem um adeus, só, assim...

Todo o dia eu só quero
quando a noite vai chegar
ir logo logo dormir
para poder ir sonhar

Sentindo você nos meus braços
seu corpo colado ao meu
bailando bem devagar
a morna de "Zé Tadeu"

E não vou mais trabalhar
nem o grão nem o café
por causa desse perfume
que me dá tanto lume
como se a visse a meu pé!

Ai, Rosinha, você foi embora
e nem porquê me confessou.
Traz meu coração agora,
Que na mala você o levou!

Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...