Friday, February 27, 2009

A lista das compras da minha mãe é sempre muito esquisita.

Não começa a ser feita senão lá para 5ª ou 6ª feira, num pedaço de papel às-três-pancadas em que se anota tudo o que vai vendo que falta em casa, e aquilo que a empregada vai lembrando (o que, diga-se, é um mau início, pois que ambas são já umas cotas e a memória já não está lá muito fresca).

Arroz, farinha, esparguete, açucar, ovos.....

Entretanto toca o telefone, TRRRRRIIIIIIM!!! TRRRRRIIIIIIM!!! e lá vai a mãe atender. Põe-se a falar com a avó Gi e pronto! Acaba a conversa sempre baralhada, e aí, começa a confusão!!

Quando regressa à cozinha já não se lembra da lista começada “Aonde é que eu ia? Ah, sim o óleo...( e acaba por não anotar os ovos, por exemplo!).

Mas volta-se para o fogão e os tachos, para ir adiantando o jantar, e só à medida que cozinha, é que se vai lembrando de uma ou outra coisa, dizendo alto: “Meninos, lembrem-me que tenho de comprar margarina!!” “Maria, Tomás, lembrem-me que já não há cereais!” “Oh! Teresinha, vê lá se precisamos de papel higiénico”, “Tomás, pergunta ao pai se ainda tem shampô”) .

Com tantos pedidos, perguntas e avisos, gera-se um verdadeiro corropio perfeitamente disparatado entre a cozinha, o escritório, a casa de banho, a sala e o corredor! E, claro está, que ao fim de todos estes anos, já ninguém cá em casa liga nenhuma! São tagarelices chatas de mãe-dona de casa-stressada!! QUE SECA, pensamos!!

Então, num dia depois das aulas e dos empregos, um dia a Mãe decreta ser o momento (“...e já! Se não já não consigo ir”) de ir ao supermercado. E todos lá em casa estremecem ante o cenário que se avizinha.

Mas antes de partir, é difícil arranjar candidatos a ajudantes: ninguém quer ir. O pai recusa-se “não contes comigo para andar a passear em supermercados! ”; os manos fogem: “outra vez esta seca”; “hoje vais tu que eu fui a última”!

Acaba por sobrar sempre para mim que sou a mais nova(!)

Dentro do super, inicia-se o pandemónio: primeiro serenamente (“ainda temos tempo, deixa só ver o que há nas promoções”) e depois gradualmente aumentando de velocidade, à medida que também o carro das compras se vai atafulhando de coisas (algumas bastante supérfulas, eu acho!!).

De todo este rebuliço se conclui que muitos dos artigos comprados não eram totalmente necessários e outros tantos ficaram esquecidos nos tais “lembretes” familiares!!

Depois, vem o drama de arrumar o carro no parque de estacionamento por baixo da loja: a minha mãe, cujo sentido de orientação é quase nulo, perde-se quase sempre! E é ver um carrinho a abarrotar, a ser empurrado com esforço por uma filha a bufar, e a mãe atrás, andando às voltas e a gesticular (“ Tenho a certeza absoluta que pus o carro ao pé daquela porta Maria!!” “Oh mãe, é ali, não vê o carro ali?!”)

Resumindo, e para acabar esta espécie de queixume filial, resta-me dizer que o descarregar do carro, levar a tralha para cima, e arrumar tudo, se divide por todos: nós os que chegamos e os que estão em casa (se os houver por lá).

Depois de tudo metido nos respectivos lugares, rara é a vez que a minha mãe se satisfaz. Falta sempre isto ou aquilo! E lá vamos nós de novo:”Eu não acredito!! Esqueci-me dos caldos Knorr! Manéééél, queriiiiido (“desta vez chama o meu pai” numa vozinha doce, para ver se pega”) podes ir num instante comprar?”

E o meu pai, lá vai, sem lata para se negar ao recado, recebendo, a meio da viagem, a habitual chamada da mãe a pedir que traga também coentros ou qualquer outro pormenor culinário, o que o deixa um bocado irritado!!

Verdade, verdadinha, convém salientar, que neste panorama diário e confuso da nossa economia doméstica só a minha mãe está em todas:
Na tal lista mal começada e por acabar; nos telefonemas que ninguém quer atender; na cozinha com os tachos e panelas; nas correrias dentro do supermercado (mesmo se algum tempo se perde com objectos menos importantes para a vida familiar); no trânsito, vociferando contra os “totós”, os incautos e os aceleras que a empatam, assustam ou incomodam; na chegada a casa, recheada de sacos e tralha; e até mesmo naquela voz delico-doce com que convence o pai a fazer o que não gosta ao descobrir o que ainda há a comprar!!

Como sempre, o dia chega ao fim, e a mãe, vazia de grandes intelectualidades, mas coberta de “dorzinhas” nas costas e nas “dobradiças”, serve o jantar e leva o café expresso ao pai, que está sentado na sala. E quando se senta ao seu lado, para ver aquele programa de que tanto gosta, ainda tem tempo para abraçar quem se vem encostar a ela, como que para ser embrulhado em mimos, e depois.... adormece e por ali fica até às tantas da manhã, sem que ninguém a consiga acordar!

E todos nós, quando nos vamos deitar, adormecemos estafados por tanta tagarelice e resmungueira, mas tranquilos e confortados por ter aquela super mãe em casa.

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Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...