FESTIVALADA
Ingredientes:
2 apresentadores frenéticos, de olhos esbugalhados, recheados de risinhos estereotipados
1 mão cheia de borrachos ou pipis
2 ou 3 frangos maricas
3 duzias de pernas de galinha-salta-no-chão
5 litros de "playback"
1 colher de sopa de "etno"
1 duzia de pandeiretas ou instrumentos afins
6 músicos vivos
1 mão cheia de vozes de cana rachada
1 pitada de "desafinanços"
1 garrafão de champanhe
Pirosice, berloques, purpurinas e microfones q.b.
Bailarinos e contorcionistas aos pinotes
Make up a gosto
Bandeiras, claques e confetis para compôr ambiente e público
Misturar muito bem.
Cozer, no palco, mais de duas horas.
Ir verificando, pacientemente, se acabou.
AVISO: Não assustar se o resultado final for monstruoso.
Esta receita é mesmo assim: piora sempre.
Friday, September 08, 2006
IN-SENSO(M)
Fechou com estrondo a porta do quarto. Atirou os livros para um canto, pôs a música aos berros e sentou-se no tampo da secretária. «Abro ou não abro?» perguntou-se. Não, ainda não. Bamboleando o corpo, pôs-se a cantarolar «you’re beautifuuuuul, it’s true», acompanhando a voz do James Blunt na aparelhagem, enquanto olhava de esguelha para a carta... «E se não tiver ganho? Mas a carta já é bom sinal, não?!» ia dizendo baixinho. Até que se decidiu. E trémula, abriu o envelope, rasgando um canto da folha. De relance leu «Temos o prazer de informar que.....» ... E já não viu mais nada! Uivando de alegria, saíu para o corredor gritando «Mãããããããeeee!! Consegui!! Ganhei! »Aos tropeções, foi-se atirar nos braços da mãe, pulando e dançando com ela! «Páááára! Que barulheira! Mostra, deixa-me ler» pediu a mãe. «Já vou buscar. Mas primeiro abraça-me. Vá lá. Dá-me os parabéns. Não é todos os dias que se tem uma escritora de 16 anos premiada na cozinha, hein?!!» Depois da excitação inicial,e perante a insistência da mãe, a Maria lá foi buscar a carta para ler os pormenores. Só aí, ao olhar novamente, é que viu o resto. «(...) foi alargado o prazo para entrega dos trabalhos a concurso(...)». «Não, não acredito! Eu já mandei tudo à tanto tempo, o que é que me interessa que o prazo seja alargado?! Bolas!!! Estava tão contente!!» dizia, ao ritmo da batida impaciente dos tacões altos no chão, o que dava aos seus passos uma tonalidade de tropa: um, dois, três, para um lado, um, dois, três, para o outro!«Devias ter lido com mais atenção, em vez de desatares nessa gritaria desenfreada.» disse-lhe a mãe numa voz suave.«Por um momento, senti-me famosa!» murmurou para si. Depois entristeceu, e remeteu-se àquele pessimismo muito seu, que lhe prenunciava já o insucesso e o anonimato. E acabrunhada, fugiu para o seu canto e atirou-se para cima da cama., soluçando amargamente.Então a mãe, com um sorriso apaziguador , típico da sua calma de mãe-porto seguro, entrou pé ante pé no quarto. E acendeu um pau de incenso para serenar a sua menina fazedora de contos.
Fechou com estrondo a porta do quarto. Atirou os livros para um canto, pôs a música aos berros e sentou-se no tampo da secretária. «Abro ou não abro?» perguntou-se. Não, ainda não. Bamboleando o corpo, pôs-se a cantarolar «you’re beautifuuuuul, it’s true», acompanhando a voz do James Blunt na aparelhagem, enquanto olhava de esguelha para a carta... «E se não tiver ganho? Mas a carta já é bom sinal, não?!» ia dizendo baixinho. Até que se decidiu. E trémula, abriu o envelope, rasgando um canto da folha. De relance leu «Temos o prazer de informar que.....» ... E já não viu mais nada! Uivando de alegria, saíu para o corredor gritando «Mãããããããeeee!! Consegui!! Ganhei! »Aos tropeções, foi-se atirar nos braços da mãe, pulando e dançando com ela! «Páááára! Que barulheira! Mostra, deixa-me ler» pediu a mãe. «Já vou buscar. Mas primeiro abraça-me. Vá lá. Dá-me os parabéns. Não é todos os dias que se tem uma escritora de 16 anos premiada na cozinha, hein?!!» Depois da excitação inicial,e perante a insistência da mãe, a Maria lá foi buscar a carta para ler os pormenores. Só aí, ao olhar novamente, é que viu o resto. «(...) foi alargado o prazo para entrega dos trabalhos a concurso(...)». «Não, não acredito! Eu já mandei tudo à tanto tempo, o que é que me interessa que o prazo seja alargado?! Bolas!!! Estava tão contente!!» dizia, ao ritmo da batida impaciente dos tacões altos no chão, o que dava aos seus passos uma tonalidade de tropa: um, dois, três, para um lado, um, dois, três, para o outro!«Devias ter lido com mais atenção, em vez de desatares nessa gritaria desenfreada.» disse-lhe a mãe numa voz suave.«Por um momento, senti-me famosa!» murmurou para si. Depois entristeceu, e remeteu-se àquele pessimismo muito seu, que lhe prenunciava já o insucesso e o anonimato. E acabrunhada, fugiu para o seu canto e atirou-se para cima da cama., soluçando amargamente.Então a mãe, com um sorriso apaziguador , típico da sua calma de mãe-porto seguro, entrou pé ante pé no quarto. E acendeu um pau de incenso para serenar a sua menina fazedora de contos.
ACRÓSTICOS
Navego em águas sombrias
Afastando, impaciente, o
Vento que me revolve as ideias.
Enquanto espero a luz do sol,
Guardo bem fundo gestos selvagens e fugazes,
Arremessando para longe esta
Revolta intemporal de ser coisa nenhuma
Antes do tempo a
Felicidade já existia. Mas devagar,
Intermitente. E
Na penumbra, fiquei inventando
Amanhãs, ansiosa por ser atingida,
Literalmente, por ti.
Impávido, o écran vai divulgando o medo e o
Nascimento de inocentes, na segurança de nada,
Cinzentos de morte e de frio. Vêem-se
Restos humanos misturados com destroços.
Imagens-memória de uma guerra-
Veneno, com a miséria estampada, como um
Emblema. E para lá desses céus de sangue, bem longe ,
Lê-se, nos olhos de quem assiste, a incredulidade.
Sonhei a imensidão do azul do céu
Oferecida em infinitos momentos
Navegados no branco das nuvens.
Houve em mim uma alma a tocar a lua. E os meus
Olhos foram-se tingindo de
Silêncios eternos e suaves marfins
Navego em águas sombrias
Afastando, impaciente, o
Vento que me revolve as ideias.
Enquanto espero a luz do sol,
Guardo bem fundo gestos selvagens e fugazes,
Arremessando para longe esta
Revolta intemporal de ser coisa nenhuma
Antes do tempo a
Felicidade já existia. Mas devagar,
Intermitente. E
Na penumbra, fiquei inventando
Amanhãs, ansiosa por ser atingida,
Literalmente, por ti.
Impávido, o écran vai divulgando o medo e o
Nascimento de inocentes, na segurança de nada,
Cinzentos de morte e de frio. Vêem-se
Restos humanos misturados com destroços.
Imagens-memória de uma guerra-
Veneno, com a miséria estampada, como um
Emblema. E para lá desses céus de sangue, bem longe ,
Lê-se, nos olhos de quem assiste, a incredulidade.
Sonhei a imensidão do azul do céu
Oferecida em infinitos momentos
Navegados no branco das nuvens.
Houve em mim uma alma a tocar a lua. E os meus
Olhos foram-se tingindo de
Silêncios eternos e suaves marfins
DA JANELA DO MEU QUARTO
Da janela do meu quarto vejo a janela do 4º andar do prédio em frente.E nessa janela vejo o reflexo do meu olhar, a devassar o universo íntimo de alguém. Todos os dias tento ver mais e descobrir mais. O meu “voyeurismo” está a tornar-se uma obssessão. Já te trato como parte integrante do meu ritual diário. Como serás? Será que estás bem? Nunca abres a janela ou te aproximas...Até que decido alterar este horário. Resolvo espreitar ao fim do dia, quando chego a casa. Talvez assim...Nessa expectativa, nem consigo trabalhar direito. Não me concentro, tal a excitação que me invade por saber que vou encontrar a tua luz para lá da vidraça. Por fim, numa tarde muito escura de inverno, vejo-te ali e dou um rosto aos meus devaneios curiosos. Surpreendida, percebo-te deitado, enroscado, num novelo de desespero e solidão. Sinto os teus olhos tristes a percorrer o escuro como se (me) procurassem... E imagino o som das tuas lágrimas secas, os músculos flácidos e os espasmos de dor que te sacodem o corpo.Espreitar já não me satisfaz mais. Pressinto que precisas de alguém.Então, saio correndo, atravesso a rua e vou ter contigo
Da janela do meu quarto vejo a janela do 4º andar do prédio em frente.E nessa janela vejo o reflexo do meu olhar, a devassar o universo íntimo de alguém. Todos os dias tento ver mais e descobrir mais. O meu “voyeurismo” está a tornar-se uma obssessão. Já te trato como parte integrante do meu ritual diário. Como serás? Será que estás bem? Nunca abres a janela ou te aproximas...Até que decido alterar este horário. Resolvo espreitar ao fim do dia, quando chego a casa. Talvez assim...Nessa expectativa, nem consigo trabalhar direito. Não me concentro, tal a excitação que me invade por saber que vou encontrar a tua luz para lá da vidraça. Por fim, numa tarde muito escura de inverno, vejo-te ali e dou um rosto aos meus devaneios curiosos. Surpreendida, percebo-te deitado, enroscado, num novelo de desespero e solidão. Sinto os teus olhos tristes a percorrer o escuro como se (me) procurassem... E imagino o som das tuas lágrimas secas, os músculos flácidos e os espasmos de dor que te sacodem o corpo.Espreitar já não me satisfaz mais. Pressinto que precisas de alguém.Então, saio correndo, atravesso a rua e vou ter contigo
EM-VELHA-SER
Estou andando a caminho de em velha me tornar
E de tudo me esquecer e nada já me lembrar
Mas quando o meu corpo já não responder à chamada
e o meu espírito parecer não pensar em mais nada
De herança fica uma vida com mil coisas para contar,
recheada de imagens e palavras de (en)cantar.
Deixo-as bem coloridas, repletas de sensações,
donas de muita alegria, formas e ilusões...
E se acaso acontecer uma lágrima cair
(ou um sorriso a nascer se transformar quase em rir)
ao percorrer devagar as páginas que eu inventei,
espero que seja de emoção por aquilo que criei.
E no fim, mãe que fui, abençoada, duma prole exemplar
quero que os frutos desses dias inspirados
se transfomem em musica, em cantigas de sonhar
para embalar docemente os meus meninos já gente
e a saudade existente poder assim apagar.......
Estou andando a caminho de em velha me tornar
E de tudo me esquecer e nada já me lembrar
Mas quando o meu corpo já não responder à chamada
e o meu espírito parecer não pensar em mais nada
De herança fica uma vida com mil coisas para contar,
recheada de imagens e palavras de (en)cantar.
Deixo-as bem coloridas, repletas de sensações,
donas de muita alegria, formas e ilusões...
E se acaso acontecer uma lágrima cair
(ou um sorriso a nascer se transformar quase em rir)
ao percorrer devagar as páginas que eu inventei,
espero que seja de emoção por aquilo que criei.
E no fim, mãe que fui, abençoada, duma prole exemplar
quero que os frutos desses dias inspirados
se transfomem em musica, em cantigas de sonhar
para embalar docemente os meus meninos já gente
e a saudade existente poder assim apagar.......
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