Wednesday, February 27, 2019

EC Cascais 25 Fev 2019 - Juanito


Na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, a atmosfera era tensa. De tal modo que a agressividade e violência de uns era atiçada a cada momento só pela insistência dos que tentavam furar o bloqueio e passar bens de primeira necessidade às populações desesperadas . A toda a hora chegavam mais homens, mulheres, crianças. Perdidos, debilitados pela fome, acabrunhados por deixarem para trás tanta gente sem força para lutar.
Quando Elsa chegou, apresentou-se no hospital improvisado, onde acudiam os refugiados, pondo a sua experiência ao dispor dos Médicos sem Fronteiras. Percebeu, entre a indignação e a tristeza, que havia ali feridos graves, vítimas de agressões violentas das milícias. Assim, a desinfetar feridas, suturar golpes e imobilizar fracturas passou várias horas do seu primeiro dia. Ao cair da noite, saiu para descansar fora da tenda e comer qualquer coisa. Enquanto olhava aquele céu estrelado, tão diferente do da sua casa em Lisboa, ouviu um choro fraco, de criança. Ao lado era a tenda dos mortos por identificar. O choro vinha de lá. Levantou-se, entrou e viu um menino com cerca de 4 anos, ensanguentado, agarrado à maca onde jazia uma jovem mulher, cheia de ferimentos no peito. Foi ter com ele e com uma voz serena, tentou acalmá-lo, enquanto lhe limpava a cara. Depois, ofereceu-lhe o chocolate que ia comer e um abraço. A criança agarrou-se ao seu pescoço, com força, e à medida que caminhava pelas tendas à procura da assistente social local, sentiu o seu corpo magro despindo levemente o abandono. Quando encontrou Encarnación, soube que ele se chamava Juanito e que a mãe fora uma das pessoas atropeladas pelos carros blindados, que morrera no local. Que ninguém conseguira levar o miúdo dali . Que ele insistia «quiero mi papá» e todos rezavam para que ele aparecesse.  Teimosa, Elsa, orientada por Encarnación, e com a criança adormecida nos braços, dirigiu-se ás ultimas tendas do campo de refugiados, perguntando se havia por ali alguém à procura da família. Por fim, entre muitos nessa situação, descobriram um homem jovem, exausto e em choque, encolhido num canto. Juanito abriu os olhos como se o chamassem e falou debilmente «papá».  Elsa viu-o então correr para o pai e teve a certeza que os laços que os uniram nas últimas horas, iriam fortalecer-lhes a esperança e o futuro.

EC Cascais 25 Fev 2019 - Mineiro


O mineiro despede-se. Os seus olhos erram, sorrindo o que não sentem. Muda de roupa, e no elevador olha, sem ver, o escuro que o espera, fazendo um paralelo com a morte que o espreita. Sempre tivera medo. Mas a vida trouxera-lhe irónicos remates de sorte e agora ali estava. A descer todos os dias o poço da mina. A comer nacos de sombras a cada colher de migas que levava à boca. A despedir-se da família a cada turno, como se fosse o último. O salário dava para viver sem fome, mas era-lhe francamente difícil viver sem sol.

Wednesday, February 20, 2019

EC Cascais - 18 Fev 2019 - Luisa



Tentara comer qualquer coisa mas o canivete caíra e a maçã, entretanto podre, rolara para junto da enorme estante da biblioteca.
As suas mãos estavam exaustas. Tinham sido muitas horas sem dormir, a hesitar escrever, a apagar, a rabiscar, a riscar, a amarrotar e a atirar para longe folhas e folhas de papel. Acendera um cigarro ao princípio da tarde e até esse se consumira no cinzeiro.
Em cada linha que se propusera encher do seu bloco de notas, tinham caído mais lágrimas que palavras. Como podia ele descrever, em poucas linhas, os quase 60 anos de vida em comum!? Como havia ele de lhe dizer adeus se não se queria despedir!? Tinham tido uma vida rica, colorida, feliz, cheia de aventuras, alegrias, pisar de riscos, contestações. Mas sobretudo, muito amor, muita paixão.  E, de olhos fechados, recordou a última ópera que tinham visto e a música que tanto amavam. Levantou-se então, procurou Wagner entre os muitos compositores da sua coleção e, ao som da melodia da morte de Isolda, encontrou ânimo para escrever:
Amo-te para lá da morte. E para sempre, na eternidade.

EC Cascais - 18 Fev 2019 - Disparate tropical



Quando se entrava no alpendre daquela casa, ficava-se apardalado com o ambiente. Sentia-se um estranho perfume no ar e o peso de uma exuberância sufocante. Como se alguém tivesse tido intenção de chocar e delapidar todos os cânones estéticos, e fazer-nos testemunhas de um quase desprezível mau gosto. Havia uma misturada de bustos de animais, objetos étnicos de cores fortes e plantas exóticas, reais e fingidas, de todos os tamanhos. Mas a figura dominante, imprescindível neste ambiente, era um enorme e assustador leopardo de olhos de esmeralda. Se a ideia era recriar uma espécie de selva tinham conseguido! O dono da casa era conhecido pelos seus excessos e eu já ouvira falar da sua fama de perdulário. Por isso não me foi difícil perceber que aquela devia ser a sua obra de arte predileta!
Ao aperceber-me de toda esta volúpia envolvente , o primordial foi abstrair-me logo dos aromas almiscarados. Depois de olhos arregalados, entre o pasmado e o divertido, prometi a mim própria, há tantos anos professora de arte decorativa, lutar vigorosamente contra um tão grande desequilíbrio estético. Mas, tenho perfeita consciência, que nos dias de hoje é difícil combater o espalhafato e receio bem que este se torne um estilo proliferador!

Friday, February 15, 2019

EC Cascais 12 Fev 2019 - Carta


«Chego amanhã, com o nascer do sol. Escusas de preocupar com preparativos ou comidas especiais. Vou para te arrancar dessa…»
(…) vida triste e cinzenta. Quero-te livre, sem medos, pronta a abraçar-me! Já te dei sinais, prepara a mala. Mas antes não te esqueças de deixar à vista, aquela carta que tens escondida na carteira há vários meses. Vais ver que ele irá finalmente perceber o isolamento e o silêncio. Estou ansioso por ver os teus sorrisos, ouvir as tuas palavras, tocar o teu rosto e mergulhar os meus olhos nos teus que adivinho doces. Sei que todos os dias, a partir de agora, vão ser novos. Uns mais difíceis que outros. Mas vou estar para sempre contigo, primeiro exigindo de ti, depois dando tudo. Até um futuro, seja ele qual fôr.
Não lamentes nada, ainda bem que decidiste por mim!
PS: Já te amo, minha mãe, mesmo sem saber o que isso é.
Teu, bébé.

Tuesday, February 05, 2019

EC Cascais 4 Fev 2019 - O meu mar


Já houve dias em que no fundo de mim houve uma espécie de mar. Com recantos profundos, silencioso, quase assustador. Aí guardava memórias e imagens de muitas horas afundadas em lágrimas,  de momentos ancorados a palavras ocas e correntes de desânimo.
Nesses dias não gostava nem de olhar o mar escuro. Assustava-me recordar a falta de ar e o vazio que me invadia ou pensar nos tempos em que não queria tanto tempo para estar só.
Mas sei que, hoje, o meu mar está límpido e mais azul. E na serenidade das suas águas tépidas passeiam-se seres luminosos, com pequenos filamentos emprestados pelo sol para iluminar instantes sem luz e pequenos peixes feitos de sonhos, cheios de cor. 
Nele já não há escuridão nem medo.
Só uma rocha grande onde me abrigo.


Monday, February 04, 2019

EC Cascais 28 Jan 2019 - Simão


Simão parecia realizado, feliz. Sentia-se importante quando improvisava temas e brincando com as ideias e as palavras fazia deles canções, que os amigos cantarolavam. Um dia conheceu-a e, estonteado por uma estranha euforia, fez melodias e poemas arrojados, arrebatadores. Mas depois, aos poucos, percebeu que a paixão que inventava borboletas dentro de si, não era recíproca . E, aos poucos, perdeu-se descobrindo que o amor não correspondido amordaçava a sua criatividade e que os poemas, outrora de cantar, não o seriam mais porque a voz do seu coração desmaiara de amor. Então não aguentando a loucura e a infelicidade provocadas por tão estranhos sentimentos, matou-se. 
Em sua defesa, alegou, em carta à família, que não houvera truques ou improvisos que o ajudassem a acordar do pesadelo. 
Mas se tivesse sobrevivido, descobriria que afinal, tudo não passara de um enorme desencontro, de uma espécie de irónica descoberta, própria dos jovens da sua idade.

EC Cascais 28 Jan 2019 - Tempestade



Naquela ventania, ninguém estaria sossegado em casa, imaginando o pior, quando tudo começou. Ninguém previra nada daquela dimensão.
Quem ainda olhara o horizonte, vira as nuvens negras cavalgando o céu, apressadas, para se reunirem num terrível abraço. 
Quem tinha portadas fortes, cerrara toda a casa, trancando-se no escuro. 
Quem não tinha protecção, procurara espaços esconsos, becos pequenos, rezando para que a natureza em fúria não se lembrasse de si. 
Quem, como ele, nem isso tinha, olhara embasbacado aquele estranho tubo de ventos em turbilhão e, paralisado pela curiosidade e o álcool, deixara-se levar no ar, num rodopio desnorteado, rindo loucamente!

EC Cascais 21 Jan 2019 - Vôo


Stella não aguentava aquele vazio. Todo o tempo fingia que a vida continuava e que os dias tinham razão de ser, confundindo amigos e família com sorrisos inventados.
Mas a sua alma partira com o filho pequeno, quando ele se empoleirara na janela aberta e caíra, levando-lhe a voz num imenso grito de dor. Desde então, o seu coração de mãe fora endoidecendo aos poucos, em surdina, fixando aquele abismo assassino.
Como uma folha seca, caiu do parapeito da janela do 35º andar. O vento empurrou-a, fê-la cambalear e depois voar, pairando por segundos, com a saia cheia de ar, como um balão.
«Finalmente!» ainda pensou. 
Quem a viu cair, estranhou os braços esticados para o céu…

EC Cascais 21 Jan 2019 - Terra mãe


A desolação da paisagem deixou-me os dedos frios e o espírito atento, obrigando os meus olhos a reparar no céu, pincelado de branco e de luz. A leveza do ar trouxe-me a sabedoria da nascente gelada, onde a água límpida, procurava nesgas de sol para derreter e deixar-se ir escorrendo, gota a gota, pelo pequeno leito de pedras redondas.
O vento empurrou-me encosta abaixo e fui olhando esta minha terra, minha mãe, onde sou parte de tudo. E ao chegar a casa, trazida pelo fim do dia, gozei mais uma vez a dança do fogo ardente, aninhada nos teus braços e nas memórias dos nossos dias.

EC Cascais 14 Jan 2019 - Libertação


Casara muito nova e, durante bastante tempo, acalentara a esperança de ter filhos. Fora até feliz nos primeiros anos mas, a procura constante de tratamentos e a desilusão que sempre lhes seguia, tinham contribuído para o afastamento entre os dois: ela dedicara o seu tempo à profissão de telefonista; ele, ao trabalho administrativo na câmara e, sobretudo, ao álcool.
Hoje chegara cedo, como sempre, à empresa e fora logo informada que o seu posto de trabalho fora extinto. Tudo mudara: agora havia central robótica e a sua voz já não lhes interessava. Ouviu o que o seu superior lhe dizia como se estivesse noutra dimensão, assinou os papéis e saíu, consciente que, para eles, deixara de ser a Maria da Graça! Ao chegar a casa, cabisbaixa e triste, sentou-se na sala e ali ficou, esquecida, até ao cair do dia, chorando já as saudades do que perdera.
Ao entrar em casa, Alberto vendo a mulher na penumbra, sem avental, começou a gritaria do costume: «então hoje não se janta?? Ora querem ver que agora a menina virou madame?» e chegando ao pé dela, deu-lhe um abanão. Maria da Graça, cansada, nada disse. Encolheu os ombros, deu meia volta e saíu.
Para onde iria, pensou limpando as lágrimas, não sabia, mas seria com muito gozo que enfrentaria um (novo) futuro!

Sunday, January 13, 2019



EC Cascais 7 Jan 2019


Naquela noite, as terras correram diferentes e as nuvens pretas cavalgaram o céu, desirmanadas. As chuvas varreram os montes, enchendo espaços vazios e, onde antes tinham morado escuros de breu, existiam agora bocados distorcidos de luar, a pairar em reflexos inquietos. Naquela noite, tudo se moveu com a ventania. As árvores, as giestas e até as pedras da serrania. Do ribeiro saltaram as águas revolvidas pela corrente forte e, sem pedir desculpa pelo abuso, entraram margens adentro, inundando tudo em redor. Daquele instante, ficaram as memórias frias dos homens sem chão. Em mim, só ficou a imagem das terras alagadas de estrelas.


Friday, January 11, 2019

EC Cascais  07 Jan 2019

De boné na testa, deitou, cuidadoso, o azeite na lamparina. Precisava de mudar o rumo à vida e, para tirar o mofo às ideias, nada como praticar fagote. A música era o seu vício, mas não podia demorar muito, que se não burilasse a cauda do crocodilo embalsamado, o velho capitão iria de car ao chão e ainda o punha a encher frascos com tripas de peixe!
Enquanto divagava, Leal, o papagaio, viu uma mosca pousar nos cereais e berrou "tóxico!". Perto, Fisga, a cadela da tripulação, uivava ao som da melodia, O tripé de madrepérola, esse, brilhava ao luar. Sorrindo, pensou que no mar os dias nunca eram iguais...

Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...