Thursday, September 24, 2020

 

EC Cascais, 21 Set 2020

Em criança sonhava ter poder para mudar o mundo. O seu mundo. O que lhe fora oferecido e não pudera escolher. Sem o saber, sentia que, para encontrar o que lhe fazia falta, não lhe chegava procurar. Foi tentando ganhar poderes mágicos para isso. Primeiro brincando de faz-de-conta. Mais tarde, já na escola, tentando encantar quem se cruzava consigo. Uma professora viu-a,  para lá dos caracóis e levou-a a gostar das letras, dos números, dos traços num papel branco. Deu-lhe o primeiro livro. A primeira caneta. E agarradas a eles as primeiras palavras foram surgindo. Os números foram crescendo e os desenhos ganharam vida. Tudo perfeito! No esplendor dos seus sucessos chegou quase ao céu, transformando-se na estrela da companhia.

Durante um ano ou dois achou que tinha conseguido. O seu mundo já estava mudado e bem diferente. Tinha então nove ou dez anos.

Mas ao chegar ao liceu, depressa percebeu a ilusão e o resto da sua vida de estudante foi-se banalizando e perdendo o brilho. Não gostava das regras nem de tantos trabalhos forçados. Tudo lhe era cinzento, sem interesse, com adultos igualmente cinzentos a apontar caminhos onde o futuro não cintilava. Agradavam-lhe poucas matérias, questionava tudo. Só um mestre mais atento olhou para lá dos eternos caracóis e com muita paciência e dedicação conseguiu chegar ao epicentro da vida dela, iluminando-lhe o coração, a mente e a vontade. Mas foi um progresso lento. A travessia da adolescência foi pesada e levou anos a concluir que o que procurava não iria encontrar com a ajuda de um poder especial ou de um pó mágico. Só então, com  o seu mestre e amigo de longe a observar, sorrindo, descobriu a força. Dentro de si.

E a partir daí, dobrou o seu mundo e conquistou-o, mudando tudo por dentro e por fora. E mudou-se com ele.

Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...