Friday, February 27, 2009

É linda a Prima Vera. Ainda hoje.
E ainda hoje sinto um calafrio na espinha, quando estou perto dela e me recordo daqueles dias que passou conosco nas férias da Páscoa.
Quando a vi pela primeira vez, ela tinha 18 anos.
E eu 15. No auge daquela fase difícil de não me perceber e achar que ninguém me percebia. Tinha raiva de cada borbulha, dos pêlos que despontavam, dos braços compridos demais, da "maçã de adão" que mais parecia um caroço de ameixa entalado! Odiava a minha própria sombra por me sentir um verdadeiro troglodita. Queria salvar a humanidade (sobretudo da geração dos pais) e sentia o peso brutal do mundo nos meus frágeis ombros de rapaz.
Nos tempos livres, atirava-me para cima da cama e ouvia música aos berros. Arrastava-me pelos cantos gemebundo e resmungão, inseguro e irrequieto, todo os dias ansiando prazeres nunca sentidos e sensações desconhecidas.
Por isso, quando a minha mãe nos chamou para a vir conhecer à sala, e vi aquela coisa linda de cair para o lado, mesmo ali à nossa frente, corei de alegria, prazer e gaguez mental. E claro, fiz figura de urso porque quase desmaiei! Imagine-se! Eu que só pensava em gringas, ia ter aquele borracho a viver lá em casa durante 2 semanas!!!
Como a primavera, também ela era feita de tons dourados e castanhos. Os seus olhos verdes lembravam o verde das folhas e os seus lábios eram carnudos e apetitosos como maçãs. O seu corpo era para mim (que nunca vira outro) o mais belo dos corpos e o mais apetecível!
Logo na primeira manhã que passou conosco, fui às escondidas da minha mãe espreitar pela fechadura da casa de banho, enquanto ela tomava banho. Eu e o meu irmão mais novo. E foi tal a algazarra que ela deve ter percebido, pois a partir desse dia, em vez de nos denunciar, passou a despir-se mais devagar!!
Desde então, quando acordava ficava quase furioso, porque só queria continuar a sonhar com a Prima Vera e com o que a sua generosa imagem me levava a inventar, nos braços da minha imaginação fértil.
Houve algumas cenas perturbadoras que me deixaram sem fôlego, como fugazes segredos, impregnados de calor, sussurrados ao ouvido em dias de pic-nic familiar, pequenos toques no escuro e comprido corredor que me faziam cambalear a caminho da sala de jantar ou súbitos e prometedores “roçanços” por debaixo da mesa durante as refeições.
Nessas alturas, a adrenalina subia em flecha devido à sensação de que todos, incluindo a minha avó, se apercebiam do sucedido. Mas eu, que até então fora tão preocupado com os olhares e comentários de quem me rodeava, deixei de ser macambúzio, e de repente tornei-me esfusiante, dizendo graçolas e tiradas filosóficas a torto e a direito. E tornei-me surdo em relação aos risinhos abafados do pateta do meu irmão Henrique e das empregadas que lhe alimentavam a veia da cuscovelhice. Nem queria saber! Andava nas nuvens, e muito bem acompanhado!!
Até que um dia os “grandes” saíram e quando o silêncio adormeceu por fim, ela veio ter comigo ao quarto! E trouxe consigo as armas da sedução que derrotaram a minha infância, transformando-me num fogoso amante surpreendido com a sua fome voraz de vida e volúpia!
Assim, ao longo daquelas semanas de férias vivi intensamente a Prima Vera. Sorvi as suas seivas, inebriei-me com os seus perfumes, quase enlouqueci antes de cada encontro com a ansiedade de querer sempre mais.
Depois, um dia tudo acabou. Cortaram-me esta fúria com uma simples despedida, na mesma sala onde nos conheceramos.
Acabava-se a Prima Vera e a profusão das suas cores e aquela bebedeira louca dos sentidos!
Não me lembro já muito bem como se desvaneceu a dor do fim imposto daquela paixão.
Provavelmente foi com outros tantos sonhos. E com o ver-nascer-o-sol numa madrugada de Verão.
Ficou em mim a aura inconsciente da experiência e da maturidade alcançadas com a ajuda da Prima Vera. E nunca mais pensei nela. Até hoje. Ao reencontrá-la quase 60 anos depois.

Um dia, depois de ter enviuvado resolvi, numa reunião muito especial com os meus filhos, anunciar que iria distribuir a maioria dos meus bens em vida e mudar-me para um pequeno T1 num lar, pomposamente chamado de residência assistida.
Não foi uma decisão fácil. Nem para mim, por ter de admitir a minha pouca autonomia devido ao AVC, e ter de seleccionar os poucos pertences que me comporiam o apartamento, nem para os meus filhos ao aceitarem que esta seria a solução mais lúcida e adulta de todas as que poderíamos tomar em conjunto.
Mas finalmente, tudo se resumiu à mudança para um agradável apartamento, decorado pelas minhas filhas, onde os meus livros e as recordações mais próximas fariam parte do meu novo futuro, e à descoberta de um ambiente civilizado e simpático onde pessoal especializado e discreto se manteria 24 horas capaz de me ajudar em caso de necessidade.
E foi assim, que numa visita à piscina do condomínio me apercebi das aulas de hidroginástica e das alunas. E pensei com ironia «ora aqui tens algo para te distrair quando estiveres mais deprimido» ,

Estranhamente, no grupo das ginastas nadadoras não a reconheci logo. Os meus olhos já não são o que eram ... Mas, uns dias mais tarde, ouvi-a no restaurante . Estava a conversar com outra senhora, e eu não me apercebera da sua presença. Mas quando se riu, parei e dei meia volta, ao som cristalino daquela voz. A Vera aqui?! Não pode ser! Ao fim de todos estes anos encontrarmo-nos num local destes, pensei estarrecido.
E fiquei ali parado a olhar para ela com um sorriso apatetado, à espera de ser reconhecido. Até que a amiga lhe chamou a atenção «Vera, está aqui um senhor a olhar para ti com um ar muito sorridente...» e eu percebi que ela não me via. Aproximei-me então e disse-lhe «Olá Vera! Já não te via há alguns anos! Mas estás na mesma!!» Então, aquele rosto que eu adorara voltou-se e iluminou-se na minha direcção. «Jorge! Meu querido Jorge! O que fazes por aqui?!»
A amiga afastou-se discretamente, pondo o seu lugar à minha disposição. Sentei-me e com a minha mão esquerda, procurei a dela. E ali ficámos a enumerar os anos e os dias vividos longe um do outro. Foi um momento cheio de magia. Enquanto eu ia fixando vagarosamente os traços ainda belos do seu rosto e do seu corpo ela ia contando, através de sorrisos e lágrimas, as diferentes etapas e desaires da sua vida. Egoisticamente, exultei por ela não me poder ver, só se apercebendo vagamente da paralisia e da degradação física do meu corpo.
Estamos juntos desde então. Cada um separado pelas suas diminuições e pelas suas maleitas, mas sentindo a dois as dificuldades e as preocupações desta etapa das nossas vidas. Cada um no seu apartamento, mas partilhando os dias com uma serena alegria e um amor feito de doces recordações e muito altruísmo.
Vivemos o nosso tempo presente, como uma dádiva, sem pensar muito no futuro. E ao contrário do que fizemos em novos gozamos cada minuto do dia, cada dia da semana, como se fosse o último.

E ao Inverno da minha vida, mais uma vez, a Prima Vera trouxe luz e calor, fazendo renascer em mim a alma do adolescente de 13 anos.

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Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...