Thursday, May 21, 2009

Confeitaria Nacional, hora de almoçar.Depois da habitual correria, estou mesmo com vontade de comer qualquer coisa aqui, penso. Entro, aguardo que me atendam. Uma sopa saborosa e aquela sanduíche de galinha com maionese... está mesmo a apetecer, hummm!Vou trincando devagar, deliciada. Enquanto o faço, eu e as demais pessoas que por ali comem ao balcão, vão-se olhando, sem se verem, exercitando o olhar nos contornos de cada silhueta. Há uma neblina de sons que se cruzam e misturam sem realmente se ouvirem.Até que entra uma figura diferente. Um homem muito novo, muito alto, muito magro. Com uma fiada de pequenos nadas para vender por coisa nenhuma. Mais um mendigo, pensam todos. Mas estranhamente não se aproxima de nenhum um dos presentes. Não pede nada. E à medida que se acerca do balcão, o silêncio em seu redor vai crescendo, expectante.Então o homem de olhos muito azuis e barba de muitos dias, olha para todos nós, e pede à empregada um copo de água. A mulher entope e repete o pedido, talvez pela surpresa. Um copo de água? Sim, se faz favor, responde ele.E quando aparece o copo, ele tira do bolso uma castanha. E no silêncio embaraçado do ambiente, só se ouvem os dedos sujos a descascar reverencialmente o pequeno fruto, para que nada caia no chão. Depois, come-o devagar, trincando pequenos bocados com a ponta dos dentes. Como se estivesse a saborear uma sanduíche idêntica à que pedi. Por fim, limpou a boca, olhou as pessoas que o fixavam, deu meia volta e saiu.Apeteceu-me correr, chamá-lo e oferecer-lhe alguma coisa para comer. Mas fiquei presa ao chão. Envergonhada comigo própria.Nunca me custou tanto engolir o que mastigava. Suponho que o mesmo terão sentido os que presenciaram esta cena!

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Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...