CINZENTOS E NEBLINAS
PARTE I
Quando entrava no gabinete, deixava tudo lá fora. Ali era só sua. Despojada de artifícios e fingimentos. Não havia olhares nem gestos nem gente que influenciassem a sua maneira de estar ou de ser. Alheava-se de tudo e podia escrever. Ou só sonhar. Tanto era o tempo que passava a sós consigo própria. A sua companhia habitual dos espaços de preguiça era a grande e generosa janela, que lhe oferecia diariamente o espectáculo do dia a amanhecer através da neblina e o desassossego das águas do rio. Horas de trabalhar, decidiu sem ânimo. Os olhos azuis percorreram mais uma vez a paisagem através da ligeira névoa matinal. O dia anunciava-se luminoso. Quase demais, pensou. Como se se estivesse a abrir um rasgão no céu para o sol entrar sem pudor. Virou-se para o écran do computador, de novo. Abriu emails. Resolveu alguns assuntos pendentes. E de novo foi parar ao seu “canto. Aí se refugiava e aí resplandecia. Recomeçou aonde interrompera e escreveu mais umas linhas... «o rio amanhece esverdeado » Mas não estava inspirada. Não se revia nas palavras que escrevia. E os seus olhos invariavelmente deslizavam para a janela... Recomeçou dias depois. Por acaso e de modo algo inesperado. Brincou um pouco nas teclas, e foi forçada a parar. O telefone tocava. Tinha de se obrigar a quebrar o cordão que a ligava à escrita. Até achou graça. Quase parecia uma dança, pensou, rindo por dentro. Dois passos e pára. Três palavras e pára. Ligou o rádio. Precisava da música e do seu balanço. O ritmo fazia parte integrante de si e até nos seus textos se manifestava, deixando aqui e ali um pequeno ou grande toque de movimento. Nova interrupção. Desta vez mais longa. Levou anos sem mexer no texto. Para ser franca, já nem se lembrava dele... Até que num momento de “saudades” reencontrou as palavras interrompidas há muito tempo. (CONT)
Friday, February 20, 2009
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...
-
A Júlia ficou sem pinga de sangue ao passar rente ao carro da florista Manuela e a troca de vitupérios que se seguiu entre elas foi um...
-
Na relva húmida do parque, deitada ficaste olhando o ceu e as estrelas. Junto ao canteiro do lago (onde um dia observaste os cisnes, invisív...
-
"Aquela magnólia do jardim ao lado tinha raízes profundas na minha infância e nos meus sonhos. Aquela magnólia tinha um tronco enorme e...
No comments:
Post a Comment