Vivia só já há tanto tempo que nem a luz do sol queria alguma coisa com ela. A sua casa era escura como breu. Só o fumo e o lume fraco das poucas giestas que arranjava aqui ou ali lhe faziam companhia. O seu homem, já se finara, havia muitos anos. Graças a Deus, já só se lembrava dele em novo, no dia em que se casou. Que depois, fora uma vida ingrata. Suja e cheia de pancada. Nah! Dele, de bom, só mesmo os filhos. Eram a sua riqueza. Mas estavam tão longe... Parira seis filhos, aos primeiros acudira a Ti Justina. Nos últimos dois, já se amanhou com a filha mais velha a ajudá-la.
Fora uma vida sacrificada, muitas das vezes à mingua. Mas nunca faltara o pão para dar aos catraios. Lá na aldeia todos se entreajudavam porque a amizade era maior que a pobreza.
Restavam-lhe vivos três filhos. Mas estavam espalhados por esse mundo fora. A sua Tina tinha querido levá-la para o Canada, quando lhe morrera num acidente o único filho solteiro, o Manuel, que consigo morava.
Mas não. Dali não saía, a não ser para a cova. Era a sua terra.
E agora estava só. Deixara de responder às cartas («pois se o tio Jacinto que lhas lia já não via nada!» pensou) E também, já ninguém vinha de férias para ali. Tinha perdido o tino aos anos. A última vez que recebera notícias da Elizabete, sua neta, fora à um ror de tempo...
Restava-lhe a vida que sabia viver. Ia todos os dias ao pasto com as cabras. Do rebanho de 20 cabeças restavam-lhe estas duas, quase tão velhas como ela... Mas eram a sua companhia, e davam-lhe algum sustento. Enquanto pastavam, sentava-se num barroco pequeno e ia falando para si própria e para os animais, como se fossem família. Ou então punha-se à cata de ervas e bagas como fizera no passado para as tizanas e mezinhas que lhe haviam dado a fama de melhor curandeira da região. O corpo é que decidia. Que ela já não mandava nada...
Durante anos não havia, no entanto, tirado grandes proventos do facto de ser tão boa curandeira. Poucos eram os que lhe pagavam alguma coisa. Eram todos tão pobres como ela e não tinha alma para lhes pedir nada. Só nos dias mais magros perdia a vergonha e pedia aos mais endinheirados que lhe trouxessem qualquer coisinha como paga pelos tratamentos. E tinha conseguido levar a casa adiante.
Mas apesar da riqueza não lhe bater à porta, tinha orgulho na sua profissão e na sua sabedoria.
E sabia que todos a procuravam porque confiavam na sua arte e a respeitavam como curandeira.
Mas agora, já nem isso conseguia fazer. Não via quase nada – devia ser fumos nos olhos...
(CONTINUA)
Friday, February 27, 2009
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