Casara muito nova e, durante bastante tempo, acalentara a
esperança de ter filhos. Fora até feliz nos primeiros anos mas, a procura
constante de tratamentos e a desilusão que sempre lhes seguia, tinham
contribuído para o afastamento entre os dois: ela dedicara o seu tempo à
profissão de telefonista; ele, ao trabalho administrativo na câmara e,
sobretudo, ao álcool.
Hoje chegara cedo, como sempre, à empresa e fora logo
informada que o seu posto de trabalho fora extinto. Tudo mudara: agora havia
central robótica e a sua voz já não lhes interessava. Ouviu o que o seu
superior lhe dizia como se estivesse noutra dimensão, assinou os papéis e saíu,
consciente que, para eles, deixara de ser a Maria da Graça! Ao chegar a casa,
cabisbaixa e triste, sentou-se na sala e ali ficou, esquecida, até ao cair do
dia, chorando já as saudades do que perdera.
Ao entrar em casa, Alberto vendo a mulher na penumbra, sem
avental, começou a gritaria do costume: «então hoje não se janta?? Ora querem
ver que agora a menina virou madame?» e chegando ao pé dela, deu-lhe um abanão.
Maria da Graça, cansada, nada disse. Encolheu os ombros, deu meia volta e saíu.
Para onde iria, pensou limpando as lágrimas, não sabia, mas seria com muito gozo que enfrentaria um (novo) futuro!
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