Wednesday, February 20, 2019

EC Cascais - 18 Fev 2019 - Disparate tropical



Quando se entrava no alpendre daquela casa, ficava-se apardalado com o ambiente. Sentia-se um estranho perfume no ar e o peso de uma exuberância sufocante. Como se alguém tivesse tido intenção de chocar e delapidar todos os cânones estéticos, e fazer-nos testemunhas de um quase desprezível mau gosto. Havia uma misturada de bustos de animais, objetos étnicos de cores fortes e plantas exóticas, reais e fingidas, de todos os tamanhos. Mas a figura dominante, imprescindível neste ambiente, era um enorme e assustador leopardo de olhos de esmeralda. Se a ideia era recriar uma espécie de selva tinham conseguido! O dono da casa era conhecido pelos seus excessos e eu já ouvira falar da sua fama de perdulário. Por isso não me foi difícil perceber que aquela devia ser a sua obra de arte predileta!
Ao aperceber-me de toda esta volúpia envolvente , o primordial foi abstrair-me logo dos aromas almiscarados. Depois de olhos arregalados, entre o pasmado e o divertido, prometi a mim própria, há tantos anos professora de arte decorativa, lutar vigorosamente contra um tão grande desequilíbrio estético. Mas, tenho perfeita consciência, que nos dias de hoje é difícil combater o espalhafato e receio bem que este se torne um estilo proliferador!

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Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...