Tentara comer qualquer coisa mas o canivete caíra e a maçã,
entretanto podre, rolara para junto da enorme estante da biblioteca.
As suas mãos estavam exaustas. Tinham sido muitas horas sem
dormir, a hesitar escrever, a apagar, a rabiscar, a riscar, a amarrotar e a
atirar para longe folhas e folhas de papel. Acendera um cigarro ao princípio da
tarde e até esse se consumira no cinzeiro.
Em cada linha que se propusera encher do seu bloco de notas,
tinham caído mais lágrimas que palavras. Como podia ele descrever, em poucas
linhas, os quase 60 anos de vida em comum!? Como havia ele de lhe dizer adeus
se não se queria despedir!? Tinham tido uma vida rica, colorida, feliz, cheia
de aventuras, alegrias, pisar de riscos, contestações. Mas sobretudo, muito
amor, muita paixão. E, de olhos
fechados, recordou a última ópera que tinham visto e a música que tanto amavam.
Levantou-se então, procurou Wagner entre os muitos compositores da sua coleção
e, ao som da melodia da morte de Isolda, encontrou ânimo para escrever:
Amo-te para lá da morte. E para sempre, na eternidade.
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