Friday, September 08, 2006

IN-SENSO(M)

Fechou com estrondo a porta do quarto. Atirou os livros para um canto, pôs a música aos berros e sentou-se no tampo da secretária. «Abro ou não abro?» perguntou-se. Não, ainda não. Bamboleando o corpo, pôs-se a cantarolar «you’re beautifuuuuul, it’s true», acompanhando a voz do James Blunt na aparelhagem, enquanto olhava de esguelha para a carta... «E se não tiver ganho? Mas a carta já é bom sinal, não?!» ia dizendo baixinho. Até que se decidiu. E trémula, abriu o envelope, rasgando um canto da folha. De relance leu «Temos o prazer de informar que.....» ... E já não viu mais nada! Uivando de alegria, saíu para o corredor gritando «Mãããããããeeee!! Consegui!! Ganhei! »Aos tropeções, foi-se atirar nos braços da mãe, pulando e dançando com ela! «Páááára! Que barulheira! Mostra, deixa-me ler» pediu a mãe. «Já vou buscar. Mas primeiro abraça-me. Vá lá. Dá-me os parabéns. Não é todos os dias que se tem uma escritora de 16 anos premiada na cozinha, hein?!!» Depois da excitação inicial,e perante a insistência da mãe, a Maria lá foi buscar a carta para ler os pormenores. Só aí, ao olhar novamente, é que viu o resto. «(...) foi alargado o prazo para entrega dos trabalhos a concurso(...)». «Não, não acredito! Eu já mandei tudo à tanto tempo, o que é que me interessa que o prazo seja alargado?! Bolas!!! Estava tão contente!!» dizia, ao ritmo da batida impaciente dos tacões altos no chão, o que dava aos seus passos uma tonalidade de tropa: um, dois, três, para um lado, um, dois, três, para o outro!«Devias ter lido com mais atenção, em vez de desatares nessa gritaria desenfreada.» disse-lhe a mãe numa voz suave.«Por um momento, senti-me famosa!» murmurou para si. Depois entristeceu, e remeteu-se àquele pessimismo muito seu, que lhe prenunciava já o insucesso e o anonimato. E acabrunhada, fugiu para o seu canto e atirou-se para cima da cama., soluçando amargamente.Então a mãe, com um sorriso apaziguador , típico da sua calma de mãe-porto seguro, entrou pé ante pé no quarto. E acendeu um pau de incenso para serenar a sua menina fazedora de contos.

No comments:

Este papel sabe a sussurros e a olhares... Sabe a palavras gritadas através de ventos e mares. Sabe a gotas de letras, feitas de recordações...