Friday, September 28, 2007
Correu ofegante pelas escadas acima. O elevador cheirava a dor, a desespero. E isso já ela tinha dentro de si. Precisava era de cortar o ar frio das escadas, fixar os olhos nas paredes brancas e não pensar. Quando chegou ao 5º piso sentou-se no primeiro banco que encontrou. Calma, preciso de calma, pensou, tentando abstrair-se do cheiro agri-doce feito de mil cheiros de hospital.Já não podes fazer nada. Já partiu. Já parou este sofrimento horroroso, cotinuou a pensar. Com o coração mirrado de dor, dirigiu-se a uma enfermeira. Já não está aqui, ouviu. Nem reagiu, de tal modo estava anestesiada pelos acontecimentos e pelo aroma envolvente do éter. Antes assim...(?!) Agora tem de tratar dos procedimentos burocráticos da morte. Contactos. Combinações. Regressou às escadas, enjoada. O almoço anunciava-se pelo ar.. Pela cabeça iam passando num rodopio as imagens. Como os degraus que descia sem ver.O nosso proximo encontro será na capela, ia repetindo para si. Já não ia ter tempo para mais nada. A não ser tempo para evitar pensar nos odores do incenso e das flores misturados pelo ar. Ou para sentir na pele o cheiro das velas ou os aromas mesclados de sentimentos, de palavras, das recordações, das gargalhadas, das tristezas, dos sítios, das festas, das pessoas. Então teria de se despedir outra vez. Só que desta vez seria para sempre, pensou, enquanto as lágrimas escorriam silenciosas pela cara. Nunca mais... ia repetindo desconsoladamente. Quando chegou à rua, quase se engasgou com a luminosidade da manhã. Todos os pássaros estavam lá. Todas as flores se concentravam nesse bocado de relva para estontear com o seu perfume quem por ali passava.Então, passeou os olhos por tão lindo espectáculo, e percebeu que aquele era um adeus especial. Um adeus não. Antes um até amanhã, na eternidade..."
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